Médico e Professor na Santa Casa
Professor Clementino Fraga Filho (90 anos) - Agosto de 2007

O trabalho de uma instituição em que não há ensino, raramente é de primeira classe.
Penso que é certo dizer que, num hospital com estudantes e enfermarias, tratam-se melhor os doentes, estudam-se melhor as doenças, comete-se menor número de equívocos.
William Osler (1849/1919)

Onze de maio de 2016. Com o falecimento de Clementino Fraga Filho, encerrou-se um ciclo de grandes professores de Clínica Médica na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Com ele, Edgard Magalhães Gomes, Luiz Feijó, José de Paula Lopes Pontes e Carlos Cruz Lima. Mestres verdadeiros, cada um com suas características, todos autênticos.

Graduado em 1939, Professor Fraga teve sua formação, em grande parte, realizada no Hospital Geral da Santa Casa da Misericórdia, onde permaneceu, como médico e professor, até 1974. Afastou-se para cumprir tarefa maior, a de assumir a direção da Faculdade de Medicina e levar adiante a implantação do Hospital Universitário.

Jovem catedrático, inaugurou o Serviço da 1ª Cadeira de Clínica Médica na Santa Casa em 1957, englobando a 4ᵃ e a 20ᵃ Enfermarias, e que se destacou, desde o início, por seus aspectos inovadores. Dotou-o de um corpo clínico integrado por profissionais de reconhecida competência, que mantinham entre si uma competição saudável, de que resultava a atualização permanente de conhecimentos, com benefícios para pacientes e estudantes.

Incentivou o desenvolvimento de especialidades, como Gastroenterologia, Endocrinologia, Nutrologia, Alergia e Imunologia, além de implantar um setor de Medicina Psicossomática, a cargo de Danilo Perestrello, para mostrar a necessidade de compreender o paciente como pessoa e entender a importância de sentimentos e emoções na evolução das doenças. Projetava o paciente como a figura principal no hospital, e
ressaltava o ambulatório como seu local mais nobre, porque ali, em geral, ocorria o primeiro encontro com seu médico.

Vários setores de apoio, como Enfermagem, Nutrição e Dietética, Serviço Social, Documentação, e Biblioteca, compunham o Serviço, favorecendo a qualidade da assistência médica e da formação dos privilegiados alunos que o tiveram como professor.

Suas visitas aos pacientes era um momento especial, aguardado por todos com grande interesse. Alunos, internos, médicos e professores se reuniam em torno do leito para ouvir a história do paciente, relatada por um estudante, e acompanhar o raciocínio clínico, a impressão diagnóstica e a orientação terapêutica do Mestre. Verdadeiro texto de Clínica Médica, ao vivo.

A cada semana, havia a sempre lembrada Sessão Geral da Santa Casa, realizada no Anfiteatro Alfredo Monteiro, do Serviço do Professor Mariano de Andrade, com todos os lugares ocupados por uma plateia atenta às discussões do caso clínico, coordenadas por ele, em alternância com os Professores Magalhaes Gomes e Cruz Lima.

Após intensa e profícua atividade na UFRJ, em que ressalta a abertura do Hospital que tomou o seu nome, retornou à Santa Casa, a suas antigas e acolhedoras 4ᵃ e 20ᵃ Enfermarias.

Ainda empenhado na preparação de clínicos, criou, em 1993, o Curso de Pós–Graduação em Clínica Médica, aprovado pelo Conselho Federal de Educação. Mais uma vez, o traço da inovação. A organização curricular contemplava disciplinas cirúrgicas, Psiquiatria, Epidemiologia Clínica e Ética Médica, delimitados os conteúdos indispensáveis a tal preparação.

Na condição de Chefe de Clínica, recebi todo o apoio e estímulo para conduzir a execução de projetos de pesquisa, como vacinação contra Hepatite B em funcionários, médicos e professores da Santa Casa; em moradores de ruas da Lapa, cuidados pelas Irmãs Missionárias Madre Teresa de Calcutá; em funcionários, médicos, recém–natos e adolescentes carentes da Fundação Romão Duarte.

Em 1996, novo incentivo para outra importante iniciativa: um programa de educação continuada em Gastroenterologia, que sob o significativo título Três Manhãs na Santa Casa, se manteve até 2013, repetindo-se, portanto, por dezessete anos.

A 4ª e a 20ª Enfermarias conservam seu nome. O Anfiteatro da Provedoria da Santa Casa foi o ambiente das homenagens comemorativas de seus 80 e 90 anos. Neste último encontro com colaboradores, colegas, ex-alunos e amigos, distinguiu, em sua longa trajetória, o período consagrado ao Serviço que dirigiu nesse Hospital: “A todos que pertenceram à 1ª Clínica Médica, pessoal docente e técnico-administrativo, reafirmo: o melhor tempo da minha vida universitária foi aquele em que trabalhamos juntos.”

Encerrou-se, com seu falecimento, um ciclo de excelência profissional, de compromisso ético com a formação médica e a prestação de serviços ao doente, motivação maior dos que dedicam sua vida à prática e ao ensino da Medicina.

Milton dos Reis Arantes
Chefe da 4ᵃ e 20ᵃ Enfermarias
Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro

Discurso proferido pelo Dr. Milton Arantes na Academia Nacional de Medicina em memória ao centenário do nascimento do Prof. Clementino Fraga Filho em 24 de Agosto de 2017

Origens Baianas de um Carioca de Coração

Clementino Fraga Filho, carioca de coração, nasceu em Salvador, a 11 de agosto de 1917. Seu pai, professor catedrático da Faculdade de Medicina da Bahia, ao ser eleito deputado federal, transferiu-se com a família para o Rio de Janeiro.

Quando aqui chegou, Fraga Filho tinha a idade de 4 anos. Estudou no Colégio Santo Inácio e, em 1934, iniciou sua graduação na Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, diplomando-se em 1939.

Ainda estudante, iniciou a prática docente como Auxiliar de Ensino de História Natural e Botânica no Curso Pré-Médico. Mereceu o Prêmio Berchon Des Essarts, pela obtenção das maiores notas ao longo do curso. Foi o Orador da Turma e, em seu discurso, afirmou:

A formação do médico exige preparo técnico e capacidade moral, inteligência dócil e esclarecida no estudo. A companhia dos livros lhes deve ser fiel, pela vida afora, da alvorada ao crepúsculo. Mas é de sua alma que se pedem os seus melhores dotes, que lhe hão de ser norma e guia nas relações com pacientes e colegas.

O interesse pela Hepatologia

A formação clínica de Fraga Filho iniciou-se no Serviço de seu pai e mestre, onde havia interesse especial pela patologia hepática. Figueiredo Mendes o denominou Patriarca da Hepatologia, por sua atividade nesse setor do conhecimento ainda na década de 1930.

Tal pai, tal filho, disse Josué Montello. E continuou: Bem sabemos pela doutrina dos educadores e dos biógrafos, que na origem de toda vocação está um exemplo. Mas o bom desempenho desta vocação, para que seja mais do que uma vida imitada, depende da aptidão que a corresponde. Só a aptidão permite ir além do paradigma, com o encontro adequado de uma nova personalidade, que segue o exemplo, mas não se subordina a este servilmente, para ser ele próprio, fiel ao modelo, mas autônomo, na sua expansão e na sua afirmação.

Fraga Filho jamais escondeu o propósito de imitar o pai, como, aliás, declarou no discurso de posse da cátedra de Clínica Médica da Faculdade Nacional de Medicina. Igual influência paterna terá sido exercida em seu irmão e amigo, Hélio Fraga, figura distinguida na área da Tisiologia, aqui e no exterior. E a escolha da Medicina se prolongou em Eduardo Fraga, o filho mais jovem, professor da Faculdade de Medicina da UFRJ.

Em 1944, já Assistente da Faculdade Nacional de Medicina, Fraga Filho apresentou, em concurso para docência-livre, a tese Contribuição ao estudo da exploração funcional do fígado. Seguiram-se vários trabalhos, entre os quais Etiopatogenia e Clínica das Icterícias, Fisiopatologia e Clínica da Insuficiência Hepática, Provas Funcionais Hepáticas e Terapêutica das Cirroses Hepáticas.

No final da década de 1940, realizou as primeiras biópsias hepáticas por punção, no Brasil, utilizando a agulha de Vim-Silverman. Datam dessa época, os primeiros cursos de extensão universitária em Hepatologia no Brasil, ministrados no Rio de Janeiro e na Universidade da Bahia.

Na década de 1950, novas ações. Publicou um primeiro trabalho sobre fígado e imunidade – Anticorpos Heterólogos na Hepatite por vírus – e defendeu a tese Hepatite por Vírus em seu primeiro concurso para a cátedra. Analisou analogias e diferenças entre as hepatites infecciosas e por soro homólogo, como eram então denominadas, com base em estudo histopatológico do material colhido por biópsia.

Classificou-se em segundo lugar, obtendo da Comissão Examinadora duas indicações para o primeiro. O resultado lhe valeu moção da Congregação, para preenchimento efetivo da vaga existente, independentemente de novo concurso. Fraga agradeceu a honraria, mas declarou a intenção de submeter-se à próxima seleção.

Corridos 16 anos da sua formatura, em 1955, assumiu o cargo de Professor Catedrático da 1ª Cadeira de Clínica Médica, sediada na Santa Casa da Misericórdia. Sua tese – Estudo sobre Coagulação Sanguínea em Patologia Hepática. Trabalho original, alicerçado em extensa investigação, apresentado no Congresso Mundial de Gastrenterologia, no Canadá.

A 1ª Cadeira de Clínica Médica: uma escola de Hepatologia

Entre 1956 e 1978, desenvolveu-se a 1ª Cadeira de Clínica Médica e, na sequência, o Serviço da 1ª Clínica Médica, pela extinção do regime de cátedras ao tempo da Reforma Universitária. Funcionando na 4ª e 20ª Enfermarias do Hospital Geral da Santa Casa, adquiriu prestígio nacional, pela excelência de sua atividade educacional e do pioneirismo em pesquisa clínica. Um ambiente estimulante reunia professores experimentados e jovens médicos em início da carreira docente. Bem aparelhado, com significativa produção científica, pessoal qualificado e aplicação de novos conceitos em educação médica, o Serviço tornou-se polo exportador de conhecimento para locais distantes do Brasil. Isso ajudou a valorização da Clínica Médica no confronto com o avanço das especialidades.

O conjunto de professores e pesquisadores reunidos por Fraga Filho teve repercussão importante na Hepatologia brasileira, como atestam as edições especiais do Jornal Brasileiro de Medicina: em 1968, Patologia e Clínica das Doenças do Fígado, em 1968; Hepatologia, em 1971. Ambas reuniam trabalhos da autoria de vários integrantes desse grupo, que trabalhavam nesse setor desde o final da década de 1950.

No correr dos anos de 1960, seguiram-se três importantes trabalhos: Circulating Anti-Liver Antibodies in Liver Disease; Hepatite Aguda Alcoólica; Hepatites Prolongadas e Hepatites Crônicas, este último, em que se discutiam peculiaridades evolutivas das hepatites, foi considerado artigo original.

Considerado líder de brilhante escola e Pioneiro da Hepatologia, por Figueiredo Mendes, foi por ele convidado para proferir a Conferência de Abertura do I Congresso Brasileiro de Hepatologia, na cidade de Caxambu, em 1969.

Trinta anos depois, a convite de um discípulo seu, Fernando Portella, coube-lhe, novamente, a Conferência de Abertura de XV Congresso Brasileiro de Hepatologia, aqui no Rio de Janeiro.

O Médico

Clementino Fraga Filho realizou-se tanto na assistência clínica quanto nas atividades do magistério. Valorizou a relação médico-paciente na clínica privada e no serviço universitário, e, por isso, criou o Setor de Medicina Psicossomática, entregando sua chefia a Danilo Perestrello, pioneiro em seus estudos sobre Medicina da Pessoa.

Sensibilidade, empatia e dedicação foram algumas das características que permitiram a Fraga Filho manter grande atividade na clínica privada, estimado e admirado por seus pacientes. Entre eles, Vinícius de Morais, que o chamava “o Profeta do Fígado”. Para ele, “conhecer a pessoa que tem a doença é tão importante quanto conhecer a doença que tem a pessoa”.

Cícero Adolpho da Silva, amigo de longa data, professor da Faculdade de Medicina da Bahia, ao saudá-lo por ocasião dos seus 80 anos, relembrou a afirmação de Paul Milliez, que tanto agradava a Fraga Filho. No momento de sua aposentadoria, o clínico francês afirmou:

Muitos creem dever algum reconhecimento ao médico que sou; de fato, sou apenas seu devedor. Dar-me a eles me permitiu dar a mim mesmo a impressão de ter sido útil, e minha vida ganhou o sentido que não teria se não fossem eles.

Presença no Ensino Médico

Além da marcada produção científica, com cerca de 450 publicações, como autor único ou em parceria com colaboradores, dedicou atenção especial à educação médica. Foi membro atuante e Presidente da Associação Brasileira de Educação Médica (ABEM) e

Vice-Presidente da Federação Pan-Americana de Faculdades, com sede em Caracas.

No correr de 15 anos, fez parte, intermitentemente, da Comissão de Ensino Médico do Ministério da Educação. Teve decisiva influência na elaboração de quatro dos documentos por ela produzidos, uma contribuição significativa para a reorientação do ensino médico no País. Participou também da Comissão Nacional de Reformulação da Educação Superior, do Conselho Nacional de Saúde e do CONASP, o Conselho Consultivo de Administração da Saúde Previdenciária.

Em sua extensa trajetória no ensino médico, teve a colaboração ininterrupta de Alice Rosa, a quem foi outorgada, em 2013, a Orden Francisco Hernández, em reconhecimento a sua contribuição à educação médica nas Américas.

Administrador

Às qualidades de médico e professor, se acrescentaram habilidades administrativas, demonstradas como Reitor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Diretor da Faculdade de Medicina, Presidente da Comissão de Implantação do Hospital Universitário, do qual foi o primeiro Diretor Geral.

Deolindo Couto, em seu discurso na inauguração da Sala das Congregações do Centro de Ciências da Saúde da UFRJ, prestou homenagem a Fraga e a seu irmão, Reitor à época:

O comando apto e hábil de Clementino Fraga Filho e o desenganado patrocínio de Hélio Fraga conferem aos dois irmãos predestinados lugar de realce no ensino médico brasileiro. Recebendo a herança de construções inacabadas, a despeito do esforço de predecessores solícitos, deram caráter prioritário ao projeto, cuja execução se está ultimando.

Durante o período de Reitoria, um fato político exigiu de Fraga Filho a manifestação de suas habilidades de liderança e negociação. Em pleno regime autoritário, estudantes, especialmente no Rio de Janeiro, deram início ao movimento contra as instituições universitárias.

Inspirados na revolta estudantil que agitava a Europa, centralizada em Paris, reuniram-se milhares de estudantes no Teatro de Arena da Universidade e exigiram a presença dos membros do Conselho Universitário, que iniciara sua sessão no Palácio da Reitoria. Zuenir Ventura, em seu livro 1968 O Ano Que Não Terminou, relata o desassombro do Reitor no encontro com a polícia que cercara o campus. A qualidade de hábil negociador foi confirmada quando obteve a retirada da milícia, após gestões junto ao Governador do Estado.

Durante os 65 anos de trabalho na Santa Casa, na Faculdade de Medicina e no Hospital Universitário, Fraga Filho foi dedicado aos doentes, incentivador de seus colaboradores, leal aos seus colegas e amigos, reconhecido à Secretária Iclea Giordano que o acompanhou, com dedicação e eficiência, por mais de 50 anos, na Santa Casa, no Hospital Universitário e, até o final, na atividade em sua clínica particular.

Retorno à Santa Casa

Cumprida a carreira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Clementino Fraga Filho retornou à Santa Casa da Misericórdia, em 1986, retomando suas atividades na 4ª e 20ª Enfermarias, tradicionais ambientes de assistência e ensino nos tempos da 1ª Cadeira de Clínica Médica.

Entre suas iniciativas, sobressaíram dois programas educacionais, um de pós-graduação – Curso de Especialização em Clínica Médica – e outro de educação continuada em Gastrenterologia – Três Manhãs na Santa Casa. O primeiro, aprovado pelo Ministério da Educação, foi inovador, pela inclusão na estrutura curricular das disciplinas Epidemiologia Clínica, Ética na Prática Clínica, Psiquiatria para o Clínico. O segundo se manteve por 17 anos, com apresentações anuais de especialistas qualificados. A conferência de abertura versou o tema Transplante Hepático, proferido pelo cirurgião José Roberto Nery, da Universidade de Miami, estando presentes quatro pacientes brasileiros por ele operados.

No campo da investigação, em parceria com o Departamento de Virologia da FIOCRUZ, conduzido à época por Clara Yoshida, a equipe
médica do Serviço executou projetos de pesquisa sobre marcadores
virais das hepatites, que resultaram na vacinação, contra o vírus de hepatite B, de funcionários, médicos e professores da Santa Casa; em moradores de ruas da Lapa, cuidados pelas Irmãs Missionárias da Caridade Teresa de Calcutá; e outro, no berçário do Instituto Romão
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Duarte, pertencente à Santa Casa, vacinando-se também médicos, funcionários, adolescentes e recém-natos.

Na atividade assistencial nas áreas de Gastrenterologia e Hepatologia, ressalta a prestação permanente de serviços, desde 2001, à população de rua assistida pelas referidas Irmãs Missionárias, incluída a vacinação contra hepatite B.

Conclusão

Há 32 anos, o Conselho Universitário aprovou, por unanimidade, voto de louvor apresentado pela Professora Anna Maria Castro, como prova do justo reconhecimento por seu incansável trabalho. E, nessa mesma sessão, em 1985, nasceu o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, em homenagem proposta pelo Reitor Horácio Macedo.

Deixou o legado da excelência profissional e do compromisso ético na educação médica e na prestação da assistência ao doente, a servir de inspiração e de modelo aos que se dedicam à prática e ao ensino da Medicina.

Clementino Fraga Filho faz lembrar o pensamento do poeta:

O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que elas acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

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